Real Gabinete Português comemora 180 anos e finaliza obras de restauro

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Além de restauro do patrimônio arquitetônico, prédio anexo foi reformado para abrigar acervo bibliográfico atual e novas publicações

Rio, Julho, 2017 – Em harmonia com as cores da vida urbana, cravado no Centro do Rio, está o Real Gabinete Português de Leitura. Considerada uma das bibliotecas mais expoentes do país, além de uma das mais antigas da América Latina, a suntuosidade arquitetônica do local já conferiu ao espaço, em 2014, o quarto lugar na lista das vinte bibliotecas mais lindas do mundo, de acordo com a revista norte-americana Time. Agora, o prédio na Rua Luís de Camões, que abriga o maior acervo de obras lusitanas fora de Portugal, teve, em maio, reforma finalizada, com o restauro arquitetônico e ampliação do espaço para armazenamento de livros.

A maior reforma após sua construção durou dois anos. O motivo do longo período está longe de ser um ou outro empecilho. Foi, na verdade, consideração às exigências para não danificar o patrimônio arquitetônico (o prédio é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – Inepac) e bibliográfico, e, também, à obrigatoriedade de manter as portas da instituição abertas para receber – com segurança – continuamente o público. É o que explica Adriana Crespo, da Foco Arquitetos Associados, arquiteta responsável e administrante da equipe realizadora do projeto, que contou, ainda, com o trabalho da Decato, à frente do campo de obras, e da empresa Astorga, responsável pelo projeto das coberturas do Real Gabinete:

– Todo o processo foi bastante seguro e abrangente, dividido em algumas etapas. Na primeira, nosso objetivo foi resolver os problemas crônicos de infiltração das águas pluviais em todas as coberturas do prédio. Já na segunda, por meio de estudos detalhados, cuidamos da restauração dos belíssimos vitrais e vidros originais importados, além de algumas pinturas artísticas, pinturas nas paredes superiores e grupos escultóricos. Passou também pelo restauro a fachada original, em estilo arquitetônico neomanuelino, comum em Portugal nos séculos XV e XVI, e houve a modernização da iluminação, reforço de tetos e paredes das salas de trabalho, halls e auditório.

Prédio Anexo

Junto com o restauro arquitetônico, foram feitas obras no prédio anexo, adquirido recentemente para receber parte do acervo da instituição (ao todo, o Real Gabinete possui cerca de 350 mil obras) e dos livros que, periodicamente, vêm de Portugal, já que uma lei portuguesa determina que as editoras enviem ao Real Gabinete livros editados por lá. O novo espaço conta com dois pavimentos e um mezanino, em mais de mil m². “Foi construída uma passagem interna para interligar os dois prédios. O Real Gabinete é um ícone da cidade do Rio de Janeiro, e o cuidado e manutenção tomados com este prédio histórico devem ser levados como exemplo por todos os gestores de patrimônio no Brasil”, detalha Adriana Crespo.

Para o presidente do Real Gabinete Português de Leitura, Francisco Gomes da Costa, a reforma é, além de uma obrigação com o patrimônio histórico e bibliográfico da cidade, um incremento importante ao turismo do Rio de Janeiro:

– O Real Gabinete é um presente da comunidade portuguesa e, por isso, deve ser preservado e cuidado com muito carinho, mantendo vivo o espírito lusitano na cidade. É uma joia arquitetônica no coração do Rio de Janeiro, fonte de riqueza cultural, que pode ser apreciada em sua plenitude por todos, especialmente os amantes da leitura.

Um pouco sobre o Real Gabinete Português de Leitura

O real Gabinete Português de Leitura foi fundado em 14 de maio de 1837.  A iniciativa da criação de um Gabinete Português de Leitura surgiu de um grupo de 43 imigrantes portugueses, que pretendiam dar a oportunidade a seus patrícios residentes na então capital do Império de ampliar os conhecimentos. Formava-se, assim, a primeira associação portuguesa no Brasil.

Mais de 350 mil títulos da Literatura Portuguesa acomodam-se elegantemente nas prateleiras do Real Gabinete Português de Leitura: um quase sacro exemplar “princeps” (primeira edição de um livro) de “Os Lusíadas”, de 1572, que pertenceu à Companhia de Jesus, é uma das raridades sob tutela da instituição. Possui ainda os manuscritos autógrafos (originais) do “Amor de Perdição” (o único no mundo), de Camilo Castelo Branco, e de “O dicionário da Língua Tupy”, em versão escrita à mão pelo poeta Gonçalves Dias, e uma peça de Machado de Assis feita especialmente para o lançamento da pedra fundamental do prédio, que traz a assinatura do escritor.

Além do acervo bibliográfico, o Real Gabinete atua como uma espécie de curador das relações culturais e sociais luso-brasileiras, desenvolvendo atividades por meio do Centro Cultural, que abre as portas a concertos de música clássica e erudita; do Centro de Estudos, criado em 1969 e que realiza cursos, conferências, palestras, congressos e colóquios, bem como promove o intercâmbio e a colaboração com universidades e institutos culturais e artísticos do país e do exterior; do Pólo de Pesquisa Sobre as Relações Luso-brasileiras (PPRLB), constituído por professores e pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, empenhados em aprofundar e dar visibilidade aos estudos que contemplam relações entre os dois países; e pelo Acervo Artístico, que é composto por obras raras, cartas, manuscritos e uma importante coleção numismática e de pinturas.

A atual sede, que fica à Rua Luís de Camões, 30,  é a quinta a abrigar o Real Gabinete e foi inaugurada pela Princesa Isabel, em 1887. Próximo à Praça Tiradentes, o local a erudição do local convive em harmonia com as cores da vida urbana do Centro do Rio. Em 1880, por ocasião da comemoração do terceiro centenário da morte de Luís de Camões, foi iniciada a construção do prédio atual, na antiga Rua da Lampadosa, hoje Luís de Camões. Por lá, no salão de leitura, foram realizadas as primeiras reuniões da Academia Brasileira de Letras, presidida por Machado de Assis. A primeira sede ficava localizada na antiga Rua Direita, atual 1º de Março; depois passou pelas ruas S. Pedro, Quitanda e Beneditinos.

Em 2014, a instituição digitalizou e disponibilizou em seu site todo o arquivo de manuscritos. O material é composto por códices, decretos e edições de livros, a maioria datada do Séc. XIX, como o manuscrito autógrafo de “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, mas há, ainda, documentos mais antigos, como Cartas Régias assinadas por Marquês do Pombal (Séc. XVIII) e o códice de Clavis Prophetarum (Séc. XVII), de autoria do Pe. Antonio Vieira.

Recentemente, a instituição realizou a digitalização de 35 mil páginas de jornais e revistas do século 19, trabalho que resultou no achado do primeiro periódico em língua portuguesa de culinária.

A biblioteca é mantida por uma mensalidade paga pelos sócios, por doações de instituições brasileiras e portuguesas e pelo aluguel de imóveis doados ao gabinete por antigos sócios. Além de consultar o acervo, o público também pode frequentar o centro de estudos, que oferece cursos gratuitos, palestras e congressos organizados por professores do Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras.

Real Gabinete Português de Leitura
Rua Luís de Camões, 30 – Centro – Rio de Janeiro – RJ – CEP: 20051-020
Telefone: (+ 55 21) 2221-3138 Tel/Fax: (+ 55 21) 2221-2960
Horário de funcionamento: de segunda a sexta-feira,
das 9 às 18 horas

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