Google vai pagar US$ 23 milhões/ano ao Sydney Morning Herald, em acordo selado antes da nova lei de mídia. Sites e Blogs são os mais prejudicados pela Google

“Nosso ponto é muito simples: se o Google usar nosso conteúdo, deve pagar por isso”, disse Costello.

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Por Luciana Gurgel | MediaTalks

Londres, 2021 – A disputa entre o Governo australiano e as gigantes digitais para obrigá-las a pagar às empresas jornalísticas pelo conteúdo exibido em suas plataformas vive uma etapa decisiva: a lei proposta pela administração de Scott Morrison está no Parlamento e pode ser votada ainda esta semana. O Comitê de Economia do Senado recomendou que a casa valide o projeto sem emendas, a oposição confirmou apoio e o Governo que ver a lei aprovada até o dia 25.

Antes mesmo de ser votada, no entanto, a lei já causou efeitos concretos. Sob pressão intensa, o Google abriu a carteira nos últimos dias para fechar acordos diretos com grandes conglomerados de mídia e incluí-los em seu News Showcase, lançado há duas semanas apenas com veículos menores.

Na segunda-feira (15), fechou com a Seven West. Na terça-feira (16) foi a vez do Nine Entertainment, conglomerado que inclui o jornal Sydney Morning Herald. E na quarta-feira (17), foi a vez da News Corp., do empresário Rupert Murdoch.

O valor do acordo com Murdoch não foi revelado, mas ele é mais abrangente do que os demais, valendo também para os títulos nos Estados Unidos (como Wall Street Journal e The New York Post) e Reino Unido (The Times e The Sun).

Pode-se ter uma idéia do montante a julgar pela negociação com o Nine Entertainment. Uma reportagem no principal jornal do grupo, o Sydney Morning Herald, revelou que o grupo receberá do Google AU$ 30 milhões (US$ 23,3 milhões) por ano nos próximos cinco anos, em troca do uso de conteúdo produzido pelos veículos do grupo (jornais, rádios, emissoras de TV e canais digitais) em produtos diversos como o News Showcase e o Subscribe with Google, que permite o engajamento direto com leitores.

Curiosamente para uma notícia sobre a casa, atribuiu a informação a “fontes familiarizadas com as negociações, que falaram anonimamente devido ao acordo de confidencialidade“. As mesmas fontes disseram que foi o maior acordo assinado pelo Google na Austrália até o momento. E que o negócio envolve pagamento direto e em créditos de propaganda, mas não cobre o conteúdo exibido em buscas.

Na lista dos grandes players australianos falta ainda fechar com o Guardian Austrália , o que a imprensa australiana aposta que pode acontecer nas próximas horas.

Endurecer o jogo valeu a pena. O grupo de Murdoch sempre se posicionou fortemente pelo pagamento do conteúdo jornalístico, assim como o Nine. O  CEO do conglomerado, Peter Costello, ex-parlamentar, chegara a conclamar os legisladores “a ignorarem as pressões das Big Techs” em uma entrevista ao Financial Times publicada há poucos dias.

O fechamento desses contratos, no entanto, está longe de ser visto como traição ao Governo ou enfraquecimento da nova lei. A leitura é de que eles só foram assinados diante da pressão exercida pela administração de Scott Morrison, que bem merece uma estátua no panteão dos defensores da sustentabilidade da indústria de mídia.

Logo após o acordo com o Nine tornar-se público, o ministro do Tesouro australiano, Josh Frydenberg, lembrou que o governo manteve-se firme na implementação da lei a despeito das ameaças do Google e do Facebook de suspenderem seus serviços no país caso ela fosse aprovada:

“As gigantes digitais não tiveram dúvidas sobre a determinação do Governo Morrison. A primeira coisa a dizer é que esses acordos não estariam acontecendo se não tivéssemos com o projeto de lei a ser aprovado no Parlamento”, disse Frydenberg.

Depois de jogar duro, Nine segue Seven West e fecha com Google

Em uma vitória para o Google, a Seven West Media tornou-se na segunda-feira (15) a primeira grande empresa jornalística australiana a fechar um acordo de licenciamento com a plataforma, que já tem quase 50 contratos fechados com títulos no país e 500 no mundo.

Ao fazer isso, separou-se momentaneamente das rivais News Corp. e Nine Entertainment, que não haviam até então assinado contratos sob o argumento de que as as negociações diretas não haviam progredido e que aguardariam a nova regulamentação que estabelecerá a arbitragem para definir os termos do pagamento na ausência de acordo direto.

Situação que mudou no dia seguinte, quando a Nine também assinou com o Google.

A confirmação do contrato entre Seven West e Google foi feita com pompa durante o comunicado de resultados financeiros da empresa de mídia, na segunda-feira (15/2). A organização, que possui uma rede de televisão aberta e o principal jornal da cidade de Perth, disse que forneceria conteúdo para a plataforma News Showcase do Google, mas não divulgou detalhes nem os valores envolvidos. Os dois lados manifestaram-se nos elegantes termos protocolares típicos desses acordos:

“As negociações com o Google reconhecem o valor da qualidade e do jornalismo original em todo o país e, em particular, nas áreas regionais”, disse o presidente da Seven West, Kerry Stokes, em um comunicado.

“A empresa está orgulhosa de apoiar um jornalismo original, confiável e de qualidade” disse a CEO do Google na Austrália, Mel Silva.”

Sites e Blogs de conteúdos pequenos são os mais prejudicados 

Um jogo apenas para os big players

Enquanto os grandes grupos de mídia negociam em posição vantajosa, editores menores demonstram preocupação com os riscos de saírem perdendo. Em entrevista ao Sydney Morning Herald, Eric Beecher, presidente da Private Media, que dirige o site de notícias Crikey, disse que a nova lei precisa de pequenas alterações para garantir que as editoras menores compartilhem “de forma justa e transparente” a receita dos gigantes da tecnologia.

“A legislação deve criar um apoio financeiro significativo para cerca de 100 editoras de notícias regionais e urbanas de pequeno a médio porte da Austrália, para que a vasta proporção do financiamento não acabe nos bolsos da News Corp e da Nine”, disse Beecher. 

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