Artigo: Espírito Santo abandonado

307

Por Creso de Franco Peixoto

Agosto, 2017 – O chuvoso dia no litoral Baiano, devidamente regado a generosos ventos frios foi propício para a redação desta coluna. Evito perder detalhes e esfriar das emoções de percurso. Era para fugir do clima paulista, mas, veio junto! Costumamos ser chamados de “pés-frios”…

No planejamento destas férias, propus irmos de carro. Afinal, era óbvio que a viagem de distância que se media em milhares de quilômetros teria aeroporto e aluguel de carro no destino. Explico para familiares que gostaria de fazer diferente. Conhecer lugares ao longo da viagem e aproveitar para fazer algumas pesquisas… Acadêmicos deveriam deixar suas atividades quando em férias, reconheço.

Ao longo dos Estados de São Paulo, Rio e Espírito Santo, rodovias sem buracos e faixas bem pintadas. Emolduram conhecidos e controversos pedágios. Esposa com planilha em punho, auxiliar em contagens e observações ao longo da rodovia. Confesso que já rendeu até litígio, quando solicitara tal apoio em viagem de núpcias.

Eu paro em posto de atendimento ao usuário, logo após o pedágio de Mimoso do Sul, Espírito Santo. Justificara para café e sanitário. Na realidade, queria um momento fora da pressão da rodovia. Tragédia de carros e caminhão, cujos ocupantes certamente teriam feito a última viagem, em face dos destroços. Permanecemos parados mais de 2 horas para o devido socorro. A chuva fina, ruído constante e suave no pára-brisa, constratava com lufadas de ar de carros que insistiam ir pelo acostamento. Não se importavam quanto à possibilidade de dificultar o salvamento nem com o risco de participar como acidentados.

-Fique à vontade! Respondera a funcionária do posto de atendimento. Local limpo, tratamento adequado.

-Teve mortos no acidente? Perguntara, apesar do evidente resultado. A sensação humana da possibilidade, por mais remota que fosse, quanto a sobreviventes.

-Tentaram salvar. Mulher, criança e homem, morreram. Falou-me, levantando os olhos do computador, com imparcialidade forense. Desceu olhos à tela, enquanto abaixo os meus, para um gole de café. Não demonstrara emoção. Por quê? O treinamento profissional fomenta ponderação e visão profissional. Protocolos funcionam: como proceder, quais respostas dar. Contudo tragédias rodoviárias, dor de amigos e parentes, são comuns em nossa atualidade, não indignam. Nos jornais, se morrem poucos, tendem a ocupar espaços restantes em folhas internas.

Crespo de Franco Peixoto, Mestre em Transportes Professor de disciplinas de Transportes do Centro Universitário FEI (Fundação Educacional Inaciana)

Artigo, originalmente, publicado no Diário do Grande ABC (SP)

 

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.