Por Ludmila Lélis, sócia-fundadora da Lélis Perícias e Avaliações em Engenharia
Fevereiro, 2026 – A morte de uma criança após o desabamento de uma laje em Porto Alegre não é apenas uma tragédia familiar. É, antes de tudo, um alerta técnico. O laudo pericial apontou que a estrutura estava em desacordo com as boas práticas da engenharia civil, além de apresentar armaduras expostas, sinais de corrosão e infiltrações que comprometeram sua capacidade resistente. Esses elementos não surgem de um dia para o outro, são indícios clássicos de deterioração estrutural progressiva.

Na engenharia, estruturas de concreto armado são projetadas para suportar cargas específicas ao longo de uma vida útil estimada. Para isso, dependem de três fatores fundamentais: dimensionamento adequado, execução correta e manutenção periódica. Quando um desses pilares falha, o risco deixa de ser teórico e passa a ser concreto.
A exposição das armaduras à ação do tempo, como indicado na perícia, acelera o processo de corrosão do aço. O aço corroído perde seção resistente, expande-se e provoca fissuras no concreto, criando um ciclo de degradação que enfraquece a estrutura. Soma-se a isso a presença de infiltrações, que reduzem ainda mais a durabilidade do elemento estrutural. O resultado pode ser silencioso, até o momento da ruptura.
É importante destacar que boas práticas de engenharia não são meras recomendações. Elas estão amparadas por normas técnicas que existem justamente para preservar vidas. Ignorá-las, seja por economia indevida, improvisação ou desconhecimento, gera consequências que ultrapassam a esfera patrimonial e alcançam a esfera humana.
Casos como esse também evidenciam a importância da perícia técnica na apuração dos fatos. O laudo não tem a função de atribuir culpa emocional, mas de esclarecer tecnicamente as causas do evento. A partir dele, é possível compreender se houve falha de projeto, execução, manutenção ou combinação desses fatores. Essa distinção é essencial para que decisões judiciais sejam tomadas com base em critérios técnicos, e não apenas na comoção social.
Além disso, a sociedade precisa amadurecer a cultura da manutenção preventiva. Estruturas não são eternas e tampouco imunes ao tempo. Pequenos sinais como fissuras, infiltrações ou ferragens aparentes nunca devem ser ignorados. Eles são manifestações patológicas que indicam que algo precisa ser avaliado por profissional habilitado.
A engenharia civil não lida apenas com concreto e aço. Lida com segurança, responsabilidade e confiança. Cada estrutura projetada e executada carrega o compromisso de proteger vidas. Quando esse compromisso é negligenciado, as consequências podem ser irreversíveis.
Tragédias como a de Porto Alegre não podem ser tratadas como fatalidades inevitáveis. São, na maioria das vezes, eventos tecnicamente explicáveis e, sobretudo, preveníveis. É justamente por isso que o rigor técnico, a fiscalização adequada e a manutenção responsável precisam deixar de ser exceção e se tornar regra.


