100 dias de ações contra Covid-19 nas favelas: Iniciativas de lideranças diminuem impacto da pandemia entre a população carente

Com distribuição de alimentos, kits de higiene, atendimento médico de primeiros socorros e centro de acolhimento para pessoas contaminadas pela Covid-19, comunidades dão exemplo de combate à doença Com distribuição de alimentos, kits de higiene, atendimento médico de primeiros socorros e centro de acolhimento para pessoas contaminadas pela Covid-19, comunidades dão exemplo de combate à doença

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Junho, 2020 – Antes do início da quarentena no Estado de São Paulo, moradores de Paraisópolis, líderes comunitários e representantes de diversos projetos da comunidade uniram-se ao G10 das Favelas – bloco de empreendedores que desenvolve atividades para auxiliar moradores de comunidades carentes em todo país – para colocar em prática diversas ações para garantir não só o alimento para famílias em situação de vulnerabilidade, mas também a higiene e a saúde de seus mais de 100 mil habitantes.

De acordo com Gilson Rodrigues, coordenador Nacional do G10 das Favelas e líder comunitário em Paraisópolis, com a chegada da Covid-19 na comunidade, percebeu-se que não haveria auxílio algum por parte dos governos. “Formarmos uma rede de solidariedade em que um morador apoia o outro através de diversas ações. Antes, havia uma dificuldade, agora temos alternativa para que a população possa enfrentar essa pandemia”, comenta.

Este conjunto de ações têm gerado bons resultados. De acordo com análise do Instituto Pólis, em territórios precários cuja organização comunitária é estruturada, o controle da doença vem sendo mais efetivo na comparação com a média municipal. Esse esforço fez com que Paraisópolis apresentasse, em 18 de maio de 2020, apresentasse taxa de mortalidade por Covid-19 de 21,7 pessoas por 100 mil habitantes, enquanto a Vila Andrade como um todo registrava 30,6 mortes a cada 100 mil habitantes. O índice também está abaixo da média municipal (56,2) e de outros distritos vulneráveis como o Pari (127), o Brás (105,9), a Brasilândia (78) e Sapopemba (72).

Ao analisar as ações e os dados de óbitos, o Instituto Pólis atesta que, a favela, apesar das condições de precariedade e vulnerabilidade, tem sido eficiente em baixar a média de mortalidade do distrito como um todo – um exemplo que pode e deve ser seguido não só em comunidades carentes como replicado pelo poder público para benefício da sociedade em geral.

Exemplo para o Brasil

Acompanhando o movimento de Paraisópolis, os modelos de iniciativas aplicadas com sucesso na comunidade paulistana foram levadas pelo G10 Favelas para todas as comunidades que compõem o bloco no Brasil, como é o caso da ação Presidente de Rua.

“Em outras localidades esta iniciativa ganhou novos nomes como “Zelador de Rua” ou “Prefeito de Rua”, respeitando os regionalismos de cada cidade, mas mantendo a importância de ter moradores das comunidades como mobilizadores sociais capazes de transformar de onde vivem e de todo seu entorno”, explica o Coordenador do G10.

O “Adote uma Diarista” também é outra ação implementada em várias comunidades além de Paraisópolis. A iniciativa apoia profissionais que foram dispensadas de seus trabalhos devido ao novo coronavírus e oferece cestas básicas, produtos de higiene e um auxílio de R$ 300 por três meses.

Foi multiplicado ainda o Home Office das Costureiras, que também está pelo Brasil como outra ação de sucesso. A iniciativa tem o objetivo de capacitar mulheres em situação de vulnerabilidade social, muitas delas com histórico de violência doméstica. A ação desempenha hoje um papel fundamental não apenas para que mulheres de favelas existentes em diferentes partes do país tenham renda em meio à pandemia.

Raio-X – 100 dias de combate à pandemia em Paraisópolis

Paraisópolis é gigante em tamanho – é considerada atualmente a maior favela de São Paulo – e provou que a grandeza de suas ações também podem servir de modelos de gestão para o poder público. Até o momento foram doadas mais de 503.423 mil marmitas pelo Bistrô Mãos de Maria – iniciativa formada por mulheres da própria comunidade, que, além de garantir o alimento para outros moradores de Paraisópolis, não ficaram sem renda durante esse período de pandemia. Além das marmitas, mais de 20 mil famílias foram beneficiadas com a entrega de cestas básicas e de kits de higiene, que também incluíam máscaras de tecido produzidas pelas próprias moradoras da comunidade através do projeto Costurando Sonhos Brasil, que garante a renda de 68 mulheres atendidas pelo projeto.

Além de prover alimento às famílias, Paraisópolis contou com a distribuição de mais de 2.496 vales compras no valor de R$ 200 cada, o que garantiu o movimento da economia do comércio local, que, apesar dos impactos financeiros causados pela Covid-19, teve a injeção de mais de 2 milhões de reais durante o período.

Cerca de 375 pessoas foram empregadas dentro da própria favela, em áreas consideradas essenciais para manter a economia girando em Paraisópolis, além de mais 130 profissionais trabalhando na linha de frente ao combate à pandemia.

Além de ações de apoio às famílias em situação em situação de vulnerabilidade, Paraisópolis criou a própria linha de defesa da Covid-19, com a implantação de 60 bases de atendimento de primeiros socorros e formação de 240 socorristas (moradores da própria comunidade .

Devido a falta de assistência pelo SAMU, foram contratadas ambulâncias para a realização de atendimento 24h, ao todo, já foram feitos mais de 4 mil atendimentos. Já para atender pessoas com sintomas leves da Covid-19, foi criado o Centro de Acolhimento, transformando duas escolas estaduais em residência para moradores que não têm condições de fazer a quarentena em suas casas. Pelo local já passaram cerca de 300 pessoas.

Todas as iniciativas foram possíveis por meio de doações externas e parcerias entre os próprios projetos da comunidade e o G10 das Favelas.

Mesmo com tantas ações, os impactos da pandemia chegaram e puderam ser sentidos na comunidade. O número de pessoas em busca de uma oportunidade de trabalho cresceu 37%, totalizando mais de 13.500 pessoas em busca de um emprego – de acordo com dados da Emprega Comunidades – Agência de emprego de Paraisópolis, conhecida como Linkedin da Favela .

Fonte: G10 Favelas

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